Né por nada não, mas tô de volta.
Eu ontem falava em voz alta o que o meu coração necessita ouvir em silêncio, e o fiz para um ícone desse passado presente que me assola o dia quando a raridade da presença me acordou tranquila.
Eu ontem falava em voz alta o que o meu coração necessita ouvir em silêncio, e o fiz para um ícone desse passado presente que me assola o dia quando a raridade da presença me acordou tranquila.
Não foi o sorvete rápido, o abraço apertado, nem os assuntos discutidos; não foram os risos sinceros, as novidades velhas ou a ansiedade que pungia por não poder ser mais constante, certamente. Mas foi a certeza de que, sim, certas coisas não mudam com o tempo, por mais mudanças que ele traga. Foi a certeza de que há muito do que fomos no que somos e mais ainda no que seremos, não importando o quanto os nossos caminhos se afastem do que sonhamos que viríamos a ser. Há algo mais. Há algo maior. Interno. Superlativo. Que nem mesmo nós somos capazes de separar. Até porque... Se o fizéssemos, ouso supor que não descartaríamos a possibilidade de tentar - e não se trata de joio nem de trigo, mas de uma mistura meio granola que fortalece sem medida os acompanhamentos.
Todo mundo precisa de um porto seguro para onde voltar. Alguém com quem as lembranças surjam entre emoções sem extinguir-se da realidade, e para quem as percepções sejam maiores do que se consegue explicar.
A verdade é que todo mundo merece de um pouco de infância e inocência nas loucuras que assolam o dia-a-dia. E que maturidade é justamente não abandonar essa vertente quando as demais insistem em se impor. A verdade é que é importante ter um cano pra escape, mesmo que não tenha esse rótulo. Alguém que faz bem simplesmente porque existe. Que entende, simplesmente porque sente. Que não discute, ou julga, justamente porque entende. Aquele alguém ou lugar em que se pode ser, simplesmente. Sem preocupações sociais ou pudores desvantajosos. Onde a coragem e o medo se confundem, onde cabe tudo e nada. Onde estão os amores e as desavenças, e onde se entende qual o limite e se pode - sim, tudo pode - transgredi-los sem qualquer punição. Onde o sonho tem vazão e o carinho afaga a alma para um sono, aí sim (enfim!) reparador.
Perceber onde ele fica, e que ele fica, mesmo quando a gente insiste em mandá-lo embora, é o grande pulo do gato. Constatar que o endereço fica logo ali, do outro lado do espelho, e que por mais que se tente apagar será sempre uma tatuagem de vida, é o grande aprendizado. Agora, aceitar isso e aprender a utilizar-se dessa enorme vantagem... Ah... isso é um dom.
E, talvez por esse reverberar inconsciente das palavras na minha alma algo de tão singelamente comum me tocou o dia. Quando, sem querer querendo, encontrei alguém que já visitou o meu porto seguro, e para quem sei que já fui um também, vi-me revisitar histórias, que julguei ter enterrado, com um sorriso encantado pelas diferenças assemelhadas que o tempo fez surgir. Foi fácil perceber que não precisa explicar. É só sentir e pronto. E que o aproximar da âncora apavora tanto quanto o alto mar.
Foi fácil perceber que o que vem de dentro não se quebra. E que por mais que tentemos nos afastar, a corrente da vida sempre nos traz de volta num ciclo evolutivo sublime...
A verdade é que o grão-de-areia sempre terá ligação com a rocha onde teve origem. Por mais longe que esteja - por opção ou não - dela. Coisa mais linda de se ver.
